Fenômeno invisível afeta audição de peixes e ameaça a vida marinha no Brasil e no mundo

  • 19/02/2026
(Foto: Reprodução)
Mar ácido: fenômeno silencioso atinge nível crítico e pode devastar a vida marinha O excesso de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento e expansão desordenada do agronegócio, está cobrando um preço alto dos oceanos. Segundo especialistas, as águas marinhas estão se tornando cada vez mais ácidas, ultrapassando limites seguros para a manutenção da vida marinha. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp O alerta é do professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP. Ele explica que o fenômeno, muitas vezes invisível, tem potencial devastador. Veja mais notícias do Terra da Gente: ESTRELA-FLOR E PORCO-DO-MAR: Seres desconhecidos são achados a 4 mil metros no oceano VIKINGS TINHAM RAZÃO: Veja o lado verde (e oculto) da Groenlândia que surpreende turistas e expõe riscos DESCOBERTA: Bagre isolado e formações raras são achados em 7 novas cavernas no interior de SP "A tendência é de redução do pH (potencial hidrogeniônico, escala que mede acidez, neutralidade ou alcalinidade) da água do mar. O aumento da acidez está atingindo níveis alarmantes. A gente está vivendo uma situação alarmante em relação a um fenômeno silencioso que tem um potencial relevante em impactar o funcionamento dos sistemas marinhos. A tendência é a piora dessa situação enquanto a gente não resolve o problema na raiz, que são as emissões de gás carbônico", explica Turra. Hidrozoários (Classe Hydrozoa) albertkang / iNaturalist Impacto na biodiversidade O efeito dessa alteração química na água é variado e perigoso. A acidez interfere diretamente na vida de organismos que dependem do carbonato de cálcio para construir suas estruturas, como esqueletos e conchas. É o caso dos recifes de corais e dos moluscos, que acabam se desenvolvendo em menor velocidade e ficando com estruturas mais frágeis. O problema afeta até mesmo os peixes. A acidificação prejudica os otólitos, estruturas internas equivalentes ao nosso ouvido, responsáveis pelo equilíbrio e audição desses animais. Professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP Arquivo pessoal "Mas há outros [impactos] que dizem respeito a diferentes processos biológicos, como, por exemplo, a sobrevivência de larvas, que são organismos muito frágeis e afetados pela acidificação, o que leva à mortalidade ou à má-formação", acrescenta Turra. "Nós temos também o comportamento dos organismos, com relatos em estudos científicos ilustrando a dificuldade de perceber predadores, dificuldade de locomoção e de encontrar recursos. Com isso, os organismos acabam ficando suscetíveis às adversidades do ambiente, não conseguindo muitas vezes encontrar alimento, parceiros ou abrigo", destaca o professor. Busca por soluções e a "geoengenharia" Especialistas são categóricos: não é possível enfrentar a mudança climática sem estratégias sérias de mitigação. Acordos globais, como o Protocolo de Kyoto, o Acordo de Paris e as discussões da COP 30, no Brasil, reforçam a necessidade de eliminar o uso de combustíveis fósseis. No entanto, a implementação dessas metas enfrenta resistência. Paralelamente à redução de emissões, a ciência busca formas de remediar o dano já feito. Corallimorfo-Laranja (Corynactis australis) bysara_lensonnature / iNaturalist Uma das estratégias é o aumento da capacidade de remoção de carbono da atmosfera através do reflorestamento e da restauração de ecossistemas terrestres e marinhos (como manguezais), que funcionam como grandes "esponjas" de carbono. Existem também propostas mais controversas de geoengenharia. Uma delas sugere "semear" o oceano com ferro para estimular a produção de microalgas (que fazem fotossíntese e absorvem carbono). Outra ideia envolve o controle químico direto da acidez. "A geoengenharia busca fazer um controle químico, reduzindo a acidez do mar diretamente. É diferente do ferro, que faz isso de forma indireta. No caso do hidróxido de sódio, o efeito é direto, é como se fosse uma reação química, mistura de dois compostos para reduzir a acidez. Embora os autores do estudo advoguem que eles estão fazendo para entender os impactos, mas que esses seriam pequenos teoricamente, na verdade eu sou bastante cético. É fundamental a gente entender que essas soluções não são uma solução total e não podem ser colocadas como solução prática, em função da escala e do custo disso", pondera Turra. Meta 30x30 e áreas protegidas Para o professor da USP, a melhor defesa ainda é a preservação. Uma das medidas globais mais potentes em discussão é a chamada Meta 30x30, que visa transformar pelo menos 30% dos oceanos em áreas efetivamente protegidas até 2030. Isso daria "fôlego" para que os ambientes naturais consigam resistir às mudanças climáticas. Segundo Turra, o Brasil possui cerca de 26% de sua área marinha sob jurisdição nacional classificada como protegida, mas, na prática, a proteção nem sempre acontece. Faltam recursos, fiscalização e manejo adequado para blindar essas regiões de ameaças como esgoto e lixo. "O Brasil é uma liderança internacional nessa agenda, mas tem muitas dificuldades de fazer isso acontecer. Não adianta a gente criar áreas protegidas no Brasil e não criar nos outros países", avalia. Anêmona-Piscívora (Urticina piscivora) jeremy_jodoin / iNaturalist A proteção dos oceanos custa caro. Por isso, parte da comunidade científica defende a transferência de recursos de países ricos para nações do hemisfério sul, que muitas vezes não têm condições de bancar programas complexos de conservação marinha. O tema é complexo e exige ação conjunta. Embora governos e cientistas tenham papel central, a redução da pegada de carbono é uma responsabilidade compartilhada para garantir o futuro da vida nos oceanos. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/02/19/fenomeno-invisivel-afeta-audicao-de-peixes-e-ameaca-a-vida-marinha-no-brasil-e-no-mundo.ghtml


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