Anac fez 2,8 mil questionamentos e 46 suspensões de aeronaves da Voepass antes de acidente em 2024

  • 24/07/2026
(Foto: Reprodução)
Cenipa diz não se recordar da Anac ser fator contribuinte para outro acidente aereo A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) fez 2.804 questionamentos e determinou 46 suspensões de aeronaves da Voepass durante três anos antes da queda do avião em Vinhedo (SP), em acidente que matou 62 pessoas em agosto de 2024. Os dados correspondem ao período desde 2022 e foram apresentados nesta quinta-feira (23) pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) durante a divulgação do relatório final do acidente. No documento, o Cenipa apontou que as fiscalizações da agência foram insuficientes para impedir que o avião da Voepass caísse. Já a Anac afirmou que fará uma análise técnica "detalhada" das recomendações apresentadas (veja abaixo). LEIA TAMBÉM: Avião da Voepass que caiu não poderia ter decolado, aponta Cenipa Acidente Voepass: Cenipa cita conversas pessoais de pilotos durante voo e 'esquecimento' de acionar sistema de degelo Acidente Voepass: fabricante francesa altera manual de aeronave e atualiza sistema após queda de ATR em Vinhedo O relatório considerou que auditorias e inspeções realizadas pela Anac antes do acidente revelaram "diversas não conformidades" técnicas e procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves, como: Fragilidade no controle de manutenção Liberações técnicas irregulares de aeronaves Danos nos sistemas de degelo Pneus usados além do limite de desgaste Falhas na supervisão da manutenção Essas falhas foram constatadas a partir de análises dos seguintes pontos: Inspeções de rampa: verificações operacionais realizadas antes da partida ou após o corte dos motores, com foco na aderência a requisitos técnicos e procedimentos aplicáveis; Inspeções de escopo reduzido: ações direcionadas à fiscalização de bases secundárias de operação ou manutenção, com foco em instalações, pessoal, recursos e aderência normativa; Inspeções de vigilância de voo de acompanhamento: avaliações in loco do cumprimento das especificações operacionais e da manutenção da aeronavegabilidade durante o voo; e Auditorias de acompanhamento em bases de manutenção: análise do cumprimento dos processos estabelecidos no Manual Geral de Manutenção. Anac suspendeu aviões da Voepass Jornal Nacional/ Reprodução Medidas da Anac não foram capazes de mitigar riscos, diz Cenipa Diante das constatações, a Anac chegou a adotar ações como afastamento de funcionários da Voepass, além das suspensões de aeronaves. Segundo o Cenipa, o período com mais suspensões foi em abril de 2023, quando oito dos 15 aviões da empresa foram proibidos de voar. Veja gráfico abaixo. No entanto, ainda segundo o Cenipa, essas constatações e medidas "não foram capazes de auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos". Com isso, as investigações do órgão concluíram que os problemas apontados pela Anac permitiram a continuidade das operações da Voepass, "apesar das degradações dos níveis de segurança". Suspensões de aeronaves da Voepass pela Anac Reprodução/Cenipa O que diz a Anac A Anac afirmou que fará uma análise técnica "detalhada" das recomendações apresentadas no relatório final da investigação. Segundo a agência, o prazo para conclusão da análise das recomendações é de até quatro meses. "As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil". informou a Anac. O que diz a Voepass A Voepass informou que a tragédia foi o episódio mais difícil da história da empresa e que, desde o momento do acidente, esteve solidária às famílias das vítimas e atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas, à disposição para colaborar com o que for necessário. Além disso, a empresa afirmou que sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação, com a atuação sempre pautada em padrões de segurança internacionais. Por fim, garantiu que a tripulação do voo que caiu era experiente, capacitada e devidamente certificada, com mais de 5 mil horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse a atuação. Avião não poderia ter decolado O avião da Voepass que caiu em Vinhedo não poderia ter decolado em horário com previsão de chuva porque tinha uma falha no sistema de limpador de para-brisa, apontou o Cenipa. "A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", disse Fróes. "Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa", completou. Falhas no sistema de degelo Cenipa divulga resultado final da investigação sobre acidente com avião da Voepass em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 O avião também apresentou falhas no sistema de degelo das asas em dois voos na véspera da queda, mas a tripulação responsável não registrou em diário de bordo, apontou o tenente-coronel. Fróes afirmou que, em voo na véspera da queda, o avião decolou de Guarulhos com destino a Ribeirão Preto e teve uma falha no sistema responsável por eliminar o gelo acumulado nas asas. Segundo ele, a tripulação, que não era a mesma do voo que caiu, não reportou isso em diário de bordo. O que foi analisado pelo Cenipa? Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave. ➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão: análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo); reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave; exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol; análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente; entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes; estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia; testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500; análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda. Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Revisão internacional Antes da divulgação, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos. O documento foi analisado: pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500; e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave. O relatório aponta culpados? Não. A investigação do Cenipa tem caráter preventivo e busca identificar os fatores que contribuíram para o acidente, além de emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação. O relatório não define responsabilidades civis nem criminais. Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). Divulgação/FAB Investigação criminal também está na reta final Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia. No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF. As conversas eram aguardadas porque poderiam ajudar a esclarecer os momentos finais do voo, incluindo se os pilotos comentaram ou acionaram o sistema de degelo — uma das hipóteses investigadas desde o acidente. Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos. Ação judicial Após a conclusão do inquérito da PF, familiares das vítimas pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais. Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização já em andamento. A intenção é buscar a responsabilização de empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que tenham contribuído, por ação ou omissão, para a tragédia. Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 Relembre o acidente O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. Infográfico - Como era o avião que caiu em Vinhedo Arte g1 VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/07/24/anac-fez-28-mil-questionamentos-e-46-suspensoes-de-aeronaves-da-voepass-antes-de-acidente-em-2024.ghtml


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