Alerta ignorado por tripulação do avião da Voepass é 'menosprezado por vários pilotos no Brasil', diz Cenipa

  • 24/07/2026
(Foto: Reprodução)
Alerta ignorado em avião da Voepass é 'menosprezado por vários pilotos brasileiros' Um dos alertas de queda de velocidade ignorados pelos tripulantes do voo 2283 da Voepass antes da queda do avião em Vinhedo (SP) também costuma ser menosprezado por pilotos brasileiros de aviões do modelo turboélice ATR, segundo relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre o caso. A declaração foi dada nesta quinta-feira (23) pelo tenente-coronel Paulo Mendes Fróes durante a apresentação do relatório final da Força Aérea Brasileira (FAB) sobre os fatores que contribuíram para o acidente, o maior no Brasil desde 2007. A tragédia ocorreu em 9 de agosto de 2024 e resultou na morte de 62 pessoas. Segundo Fróes, os aviões ATR contam com um sistema que monitora a velocidade e emite alertas quando ela fica fora dos padrões de segurança. Ele afirmou que a investigação entrevistou pilotos desse tipo de aeronave e constatou que "vários" subestimam esse item de segurança. A fabricante já realizou ações corretivas para evitar a negligência. LEIA TAMBÉM Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass VÍDEO: simulação mostra voo da Voepass da decolagem à queda Cenipa cita conversas pessoais de pilotos e 'esquecimento' do sistema de degelo Relembre queda de avião que matou 62 pessoas em 2024 Anac diz que vai analisar recomendações em até 4 meses Veja como foi divulgação do relatório em tempo real Fabricante francesa altera manual de aeronave após queda em Vinhedo Cruise Speed Low Um desses alertas é o Cruise Speed Low, que acontece em situações de 10 nós abaixo da velocidade e 10% de arrasto a mais do que o computado pelo sistema. Isso indica que a aeronave tem acumulo de gelo e está voando abaixo da velocidade segura, o que pode vir a ameaçar a sustentação. 🔎 O que são "nós" e "arrasto"? Nó é a unidade de medida de velocidade no equivalente a uma milha náutica por hora, ou seja, 1,852 km/h. Já o arrasto é a força exercida ao movimento do avião, aumentando a resistência. Nos casos de Cruise Speed Low, a tripulação deve monitorar tanto as condições de gelo quanto a velocidade da aeronave. No entanto, de acordo com Fróes, um levantamento feito pelo Cenipa com pilotos brasileiros de ATR-72 e ATR-42 apontou que o alerta é menosprezado. "Apesar de ter dois itens no checklist, eles não são itens que requerem uma ação efetiva da tripulação, e, sim, o monitoramento de condições. Nós verificamos, por meio dessas entrevistas, que esse procedimento era menosprezado por vários pilotos de ATR no Brasil", disse o investigador. Ainda segundo o Fróes, o alerta era menosprezado porque não previa "ações efetivas", já que a tripulação tinha apenas de monitorar a situação. De acordo com o relatório final, após as análises iniciais do acidente aéreo de Vinhedo, a fabricante da ATR implementou uma versão atualizada do sistema de monitoramento de velocidade. Essa atualização tem como objetivo reduzir o aparecimento intermitente de alertas, como o Cruise Speed Low, para evitar que a tripulação deixe de dar a devida atenção a eles por conta da alta repetitividade. O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente. Em nota, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais grave de sua história e destacou que prestou apoio às famílias das vítimas desde o primeiro momento. A companhia também informou que segue colaborando de forma transparente com as investigações — leia a nota na íntegra abaixo. O que foi analisado pelo Cenipa? Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave. ➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão: análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo); reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave; exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol; análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente; entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes; estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia; testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500; análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda. Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Revisão internacional Antes da divulgação, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos. O documento foi analisado: pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500; e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave. O relatório aponta culpados? Não. A investigação do Cenipa tem caráter preventivo e busca identificar os fatores que contribuíram para o acidente, além de emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação. O relatório não define responsabilidades civis nem criminais. Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). Divulgação/FAB Investigação criminal também está na reta final Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia. No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF. As conversas eram aguardadas porque poderiam ajudar a esclarecer os momentos finais do voo, incluindo se os pilotos comentaram ou acionaram o sistema de degelo — uma das hipóteses investigadas desde o acidente. Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos. Ação judicial Após a conclusão do inquérito da PF, familiares das vítimas pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais. Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização já em andamento. A intenção é buscar a responsabilização de empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que tenham contribuído, por ação ou omissão, para a tragédia. LEIA TAMBÉM: EXCLUSIVO: avião teve falha omitida em diário de bordo horas antes de decolar, diz testemunha Áudios inéditos mostram conversas entre pilotos e controle aéreo minutos antes da queda; OUÇA Bilhete de amor, terço e alianças: objetos saem intactos da tragédia e viram relíquias para famílias enfrentarem saudade Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 Relembre o acidente O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. O que diz a Voepass A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória. Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação. A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA. A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação. Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/07/24/alerta-ignorado-tripulacao-aviao-voepass-menosprezado-varios-pilotos-brasil.ghtml


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